Entrevista: Maria
ENTREVISTA DO NÚCLEO DE ACESSIBILIDADE DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - CAMPUS GOIÁS, COM MARIA DOMINGAS FERREIRA RIBEIRO DA SILVA OLIVEIRA - PESSOA COM DEFICIÊNCIA
entrevista em audio, ouça abaixo:
Tema 1: História de vida e percurso até a escolha pelo curso de Direito
- Entrevistadora prof. Denise: Maria, conte um pouco da sua trajetória de vida e dos acontecimentos que contribuíram para sua decisão de ingressar no curso de Direito.
- Maria: Meu nome é Maria Domingas Ferreira Ribeiro da Silva Oliveira, tenho 54 anos, casada com Paulo Sérgio, mãe da Maria Paula estudante de Engenharia Civil na UFG
(Universidade Federal de Goiás); da Ana Caroline estudante de Engenharia Civil na FacUnicamps, do Paulo Henrique e vovó da Maria Cecília. Sou uma mulher negra e
egressa do curso de Direito da Universidade Federal de Goiás, campus Goiás.
A escolha pelo Direito tem relação com a minha própria história de vida. Quando eu era criança, minha família vivia em situação de extrema pobreza. Estudei em Goiás e lembro de um episódio que me marcou profundamente. Eu tinha cerca de seis ou sete anos quando tentei me matricular em uma escola considerada referência na cidade. Cheguei usando sandálias simples e carregando meus materiais em um saco de arroz, porque não tínhamos condições de comprar mochila. Ao entrar na escola, fui recebida por uma funcionária que me disse que aquele não era o meu lugar e que eu não teria chance de estudar ali. Aquela situação ficou marcada na minha memória. Voltei para a minha escola e continuei estudando, mas sempre enfrentando dificuldades relacionadas à minha deficiência e à falta de oportunidades. Nesse período, encontrei uma pessoa fundamental na minha trajetória: uma professora chamada Solange Berquó. Ela me acolheu, me ensinou a escrever e acreditou em mim quando muitos não acreditavam. Eu passava diariamente em sua casa antes de ir para a escola. Ela me oferecia café da manhã, me ajudava nos estudos e me incentivava a continuar. Foi ali que comecei a acreditar que poderia construir uma vida diferente.
Mais tarde, fui morar em Goiânia. Passei por muitas dificuldades, inclusive fome.
Trabalhei em diversas atividades para me sustentar e ajudar minha família. Conheci a Associação dos Deficientes do Estado de Goiás e também pessoas que me apoiaram em diferentes momentos da minha vida.
Ao longo dessa trajetória, fui percebendo as injustiças sociais, especialmente contra pessoas pobres e com deficiência. Quando trabalhei junto a trabalhadores rurais e movimentos sociais, passei a compreender melhor a importância da defesa de direitos e foi nesse contexto que nasceu meu interesse pelo Direito.
Antes de cursar Direito, formei-me em Administração e Ciências Contábeis. Trabalhei vendendo salgados nas ruas da cidade de Goiás e foi justamente através desse trabalho que conheci estudantes e professores do IFG (Instituto Federal de Goiás – campus cidade de Goiás), que me incentivaram a prestar o ENEM e tentar uma vaga na universidade. Foi ali que um estudante do IFG (Instituto Federal de Goiás) insistiu para que eu tentasse ingressar no curso de Direito e fez a minha inscrição para o vestibular. Eu estava há mais de vinte anos fora da sala de aula e não acreditava que conseguiria. Mesmo assim, fui incentivada por várias pessoas e decidi tentar.
Quando fui aprovada em 2019, aos 47 anos, também cursava Agronomia. Foi uma decisão difícil abandonar um curso pelo qual eu tinha carinho pelos colegas e profissionais, mas percebi que precisava seguir meu sonho de estudar Direito. E mesmo após ingressar na universidade, continue vendendo salgadinhos, trufas e geladinhos durante o intervalo. Após alguns meses, conseguimos comprar um quiosque em frente a UFG (Universidade Federal de Goiás), onde permanecemos vendendo até os dias de hoje.
Tema 2: Tema 2 – Deficiência, barreiras e possibilidades
- Entrevistadora prof. Denise: Maria, você menciona que enfrentou dificuldades relacionadas à sua deficiência ao longo da vida. Você poderia nos contar qual é a sua deficiência e de que forma ela influenciou sua trajetória escolar, profissional e pessoal?
- Maria: Sou pessoa com deficiência em razão de sequelas de poliomielite no membro superior direito (CID B91).
Desde muito pequena, sonhava em estudar. Via minhas irmãs mais velhas indo para a escola todos os dias e queria acompanhá-las. Quando tinha cerca de seis anos de idade, a direção da Escola Manoel Caiado acreditava que eu não conseguiria me adaptar ao ambiente escolar. Naquela época, as escolas ainda não sabiam como lidar com alunos com deficiência, e minha matrícula foi considerada inviável.
Mas eu não desisti. Mesmo sem estar matriculada, acompanhava minhas irmãs e ia à escola todos os dias. Permanecia lá, observando as aulas e convivendo com professores e alunos. Com a persistência de uma criança que acreditava em seus sonhos, fui conquistando o carinho dos professores e mostrando que era capaz de aprender como qualquer outra pessoa. Acho que a direção percebeu que eu não desistiria. No ano seguinte, finalmente fui matriculada.
As barreiras eram muitas, mas procurei transformar cada uma delas em um instrumento de superação e cada desafio em um degrau rumo ao sucesso.
Durante minha trajetória escolar, enfrentei preconceitos e apelidos dolorosos. Alguns colegas me chamavam de “braço de borracha”, “macaca atirada”, “preta sebosa” e faziam comentários sobre meu cabelo. No início, eu chorava muito. Essas palavras machucavam profundamente. Com o tempo, porém, aprendi a lidar com essas situações. Em vez de responder com mágoa, procurei mostrar quem eu realmente era. Ensinava aos colegas como realizava tarefas com apenas uma mão, mostrava como escrevia, compartilhava histórias que minha mãe me contava e conversava bastante com todos ao meu redor. Aos poucos, eles passaram a me conhecer melhor, a me respeitar e a compreender que as diferenças não impedem a amizade. Durante o ensino fundamental e o ensino médio, não tive adaptações pedagógicas nem apoio especializado. O que encontrei foi o acolhimento, o carinho e a dedicação de professores que acreditaram em mim e reconheceram minha determinação.
O verdadeiro suporte institucional só chegou quando ingressei na Universidade Federal de Goiás (campus Goiás). Na verdade, foi dentro da UFG que descobri a existência do Núcleo de Acessibilidade. Quem me apresentou esse apoio foi Artur, estagiário do Núcleo, que entrou em contato para informar que seria meu monitor. Lembro com carinho da primeira conversa que tivemos. Quando ele me procurou, respondi: “Olha, moço, eu não tenho dinheiro para te pagar, não”. Então ele me explicou como funcionava o acompanhamento oferecido pela universidade. Naquele momento, senti algo que nunca havia experimentado em minha vida acadêmica: senti-me verdadeiramente acolhida.
Como já havia cursado Administração e Ciências Contábeis em uma instituição particular sem receber esse tipo de suporte, fiquei emocionada ao perceber que a UFG se preocupava com minha permanência e meu aprendizado. Brinco que me senti uma rainha, por ter um monitor dedicado a me acompanhar e auxiliar.
Esse apoio foi fundamental para que eu pudesse cursar a graduação com dignidade, autonomia e confiança. Mais do que um serviço, foi uma demonstração concreta de inclusão e respeito.
Tema 3: A experiência na Universidade e o apoio do Núcleo de Acessibilidade
- Entrevistadora prof. Denise: Como foi sua chegada à universidade e de que forma o Núcleo de Acessibilidade contribuiu para sua permanência e desenvolvimento acadêmico?
- Maria: Foi um momento muito marcante. Entrei na sala de aula e vi cerca de setenta estudantes, praticamente todos com 17 ou 18 anos. Eu tinha quase cinquenta anos, estava com 47, e pensei: “O que estou fazendo aqui?”
No início fiquei insegura. Estava há muitos anos sem estudar e não sabia fazer resumos, trabalhos acadêmicos ou utilizar algumas ferramentas tecnológicas. Foi nesse momento que o Núcleo de Acessibilidade teve um papel fundamental. Logo, fui orientada sobre os serviços disponíveis e recebi acompanhamento de monitores, especialmente do Arthur, que teve enorme paciência para me auxiliar. Ele explicava quantas vezes fossem necessárias e sempre me incentivava a continuar.
Além do Núcleo, recebi muito apoio dos colegas e professores. Muitos deles se tornaram amigos. Sempre me incentivaram e me fizeram acreditar que eu era capaz. Houve situações difíceis, inclusive episódios de preconceito e questionamentos sobre minhas notas. Porém, aprendi a transformar essas situações em motivação para continuar.
Sempre procurei encarar as críticas como oportunidades de crescimento.
Tema 4: Inclusão e mercado de trabalho
- Entrevistadora prof. Denise: Como você vê a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?
- Maria: Ainda existe muito preconceito. Muitas empresas afirmam que não encontram pessoas com deficiência qualificadas, mas isso não é verdade. Existem muitas pessoas preparadas e capacitadas.
O problema é que ainda há uma visão equivocada sobre a deficiência. Algumas pessoas acreditam que uma deficiência física, visual ou auditiva torna alguém incapaz para o trabalho, quando isso não corresponde à realidade. Uma pessoa com deficiência pode desempenhar diversas funções, estudar, trabalhar, empreender e contribuir para a sociedade como qualquer outra pessoa. Eu mesma trabalhei em diversas atividades, construí meu patrimônio, formei-me em diferentes cursos e hoje sou aprovada no Exame da Ordem dos Advogados do Brasil.
Tema 5: Inclusão na educação
- Entrevistadora prof. Denise: Na sua opinião, quais avanços e desafios ainda existem para a inclusão de pessoas com deficiência na educação básica e no educação superior?
- Maria: Acredito que todas as pessoas são capazes de aprender. Não importa se a deficiência é física, visual, auditiva ou intelectual. Cada pessoa aprende de uma forma, mas todas têm potencial.
Ainda faltam políticas públicas mais efetivas para garantir apoio especializado nas escolas e universidades. É importante que existam profissionais preparados para acompanhar esses estudantes e garantir condições adequadas de aprendizagem. Quando eu era criança, praticamente não existia inclusão. Muitas pessoas acreditavam que uma criança com deficiência não tinha capacidade de aprender. Felizmente, essa realidade está mudando, mas ainda há muito a ser feito.
Tema 6: O Exame da OAB
- Entrevistadora prof. Denise: O que significou para você ser aprovada no Exame da OAB e quais desafios precisou superar nesse processo?
Maria: Foi uma conquista muito importante. Fiz várias tentativas até ser aprovada no 43o Exame da OAB.
A preparação exigiu muita dedicação. Fiz cursinho preparatório, estudei intensamente e contei com o apoio da minha família. A segunda fase foi especialmente desafiadora. Era necessário identificar corretamente a peça processual, fundamentar as respostas e administrar o tempo da prova. Quando percebi que havia identificado corretamente a peça de Mandado de Segurança, senti confiança. Continuei concentrada até o final e consegui a aprovação.
Essa experiência me ensinou que persistência é fundamental! Muitas pessoas desistem após uma reprovação, mas é preciso continuar tentando.
Tema 7: Mensagem para pessoas com deficiência
- Entrevistadora prof. Denise: Que mensagem você deixaria para pessoas com deficiência que sonham em ingressar na universidade?
- Maria: Nunca permitam que alguém diga que vocês são incapazes!
Quando eu era criança, disseram à minha mãe que eu deveria ser enviada para um convento porque não teria utilidade para a sociedade. Ouvi muitas vezes que eu não conseguiria estudar ou construir uma profissão. Hoje sou formada, aprovada na OAB e continuo sonhando com novos projetos.
Transformem as palavras negativas em combustível para seguir em frente.
Não desistam dos seus sonhos. Procurem apoio, dialoguem, construam amizades e aproveitem as oportunidades que surgirem.
A universidade pode parecer distante, mas ela é possível. Existem pessoas dispostas a ajudar e apoiar essa caminhada, como exemplo: o Núcleo de Acessibilidade da
Universidade Federal de Goiás – campus Goiás.
Persistência, diálogo, amor e amizade foram fundamentais na minha trajetória. Acredito que podem ser fundamentais na trajetória de muitas outras pessoas também.
Tema 8: Projetos para o futuro
- Entrevistadora prof. Denise: Depois de tantas conquistas, quais são seus projetos e sonhos para o futuro?
- Maria: Meu objetivo é continuar atuando na área jurídica e prestar concursos públicos. Também pretendo continuar realizando atividades de orientação e apoio às pessoas que procuram ajuda. Quero usar tudo o que aprendi ao longo da minha vida para contribuir com outras pessoas, especialmente aquelas que enfrentam situações de exclusão ou discriminação.
Hoje me considero uma vencedora. Minha história foi construída com muito esforço, mas também com a ajuda de pessoas que acreditaram em mim. Agora quero retribuir ajudando outras pessoas a acreditarem em si mesmas!
AGRADECIMETOS
“Agradeço a toda a minha família, especialmente à minha mãe, Benedita, e ao meu pai, Andrelino, pelo apoio incondicional, incentivo constante e por acreditarem em minha trajetória.
Expresso minha sincera gratidão a todos os docentes e colaboradores da Universidade Federal de Goiás (UFG), em especial à equipe do Núcleo de Acessibilidade e à Prof.a Dra. Denise, pela dedicação, acolhimento, orientação e contribuição para minha formação acadêmica e pessoal.
Estendo meus agradecimentos aos docentes e discentes das áreas de Direito, Serviço Social, Administração, Arquitetura, Filosofia, Educação do Campo e Pedagogia, bem como aos demais colaboradores do Campus Goiás da Universidade Federal de Goiás, na cidade de Goiás-GO, pelos ensinamentos, apoio e compromisso com uma educação pública de qualidade, inclusiva e transformadora.”
- Maria.
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| audiodescrição da entrevista com a Maria Domingas - Pessoa com Deficiência | 16067 Kb | 1fadd7332cc4bfb0f94d2d60924007f2 |
| ENTREVISTA EM PDF MARIA | 186 Kb | fd6f2a4d587e7b8334353c93c2f23117 |
